Monday, March 26, 2012

Red Hot Chilli Peppers teve o sucesso que o Big Boys merecia

Não me entendam mal, adoro o Red Hot Chilli Peppers, eles não são plagiadores. O fato, no entanto, é que eles se destacaram por um híbrido funk/punk que tem como predecessores distantes o Gang of Four, PIL e outros grupos ingleses do pós punk, mas cuja pegada hardcore misturada a uma influência funk mais explícita teve início mesmo com o Minutemen e o Big Boys, estes últimos a banda com quem o Red Hot mais se assemelha. Curiosamente, eles assumem a influência só do Minutemen, que eu saiba. Até dedicaram o disco Blood Sugar Sex Magic ao baixista da banda, Mike Watt, hoje no redivivo Stooges.
Minutemen e Big Boys são dessas bandas avant la lettre da primeira geração hardcore que explodiu no começo dos anos 1980; não dá para reduzi-las, na verdade, a um mero híbrido punk/funk, tamanha a criatividade. O Minutemen foi pro lado de uma pegada mais experimental, enquanto o Big Boys chegou mais perto do funk racha assoalho, só que amalucado, com a energia hardcore, portanto um modelo de som que Flea, Anthony Kiedis e a gangue seguiram à risca.
É muito injusto que o Big Boys seja uma banda desconhecida até no meio hardcore, sendo reverenciada praticamente só por quem goste de skate punk: eles eram skatistas que divulgaram muito o esporte. No entanto, até nisso eles não correspondiam a um estereótipo: o vocalista, Randy "Biscuit" Turner, era gordo e gay assumido, ainda por cima no Texas, um dos estados mais conservadores dos EUA - o que na real gerou grupos com posturas muito contestadoras, como o D.R.I., Dicks e Millions of Dead Cops. O Big Boys tinha ainda como figuras centrais o guitarrista Tim Kerr e o baixista Chris Gates, também skatistas. Vários bateristas passaram pela banda, sendo o mais conhecido Rey Washam, que depois tocaria em outras bandas antológicas, tais como o Rapeman, Ministry e Lard. Hoje está tudo por aí, acessível na internet, ouçam e conheçam. Kerr, Gates e Turner tiveram outras bandas relativamente conhecidas após o fim do Big Boys em meados dos anos 80. Turner morreu em 2005.
O que acho muito triste é que o Big Boys é um grupo tão fora do comum que eles até fizeram uma música linda, tal como as baladas do Chilli Peppers nunca conseguiram ser, por melhor que sejam. Sound on Sound é a música mais bonita que conheço, ao lado de Love Will Tear Us Apart, do Joy Division, e tem uma letra tão triste e tocante quanto. Fiz uma tradução livre abaixo. Curiosamente, Sound on Sound acaba com uma transmissão em português no meio do caos sonoro das colagens de transmissões de rádio que rolam no fundo (genial isso, um som encobrindo outro, como a letra sugere): "Se continuarem insistindo que o primeiro-ministro deva renunciar...".

Ouça Sound on Sound, do Big Boys.

SOM SOBRE SOM
(Tim Kerr, Chris Gates)
Estou atrás de você, você não percebe
Fico de olho quando você está por perto
Você diz algo, o som se perde
Eu só olho, observo e escuto

Som sobre som

Amor é mera obsessão
Você é eu e eu sou você
Olhando pra trás, são só reflexos
É apenas mais um passatempo

Um som encobrindo o outro


Sound on Sound
(Kerr, Gates)

I'm behind you, you don't see me
I watch you when you're near me
You say words the sound is missing
I just look, and watch and listen

SOUND ON SOUND

Love is just infatuation
You are me and I am you
Looking back it's just reflections
It's just something else to do

SOUND ON SOUND

Tuesday, May 24, 2011

Reminiscência

"As entranhas do poder não são bonitas", Eduardo Jorge Caldas Pereira.

Acabei de ver um documentário, O Inimigo do meu Inimigo, sobre como Klaus Barbie ficou impune por décadas e como a extrema-direita persistiu em governos ocidentais. Barbie é o nazista conhecido como o "Carniceiro de Lyon" por sua crueldade ao torturar membros da Resistência francesa. Logo no começo, uma de suas vítimas relembra como ele apontou seu revólver para crianças ao irritar-se com a calma de seu pai.
Isso lembrou-me imediatamente de algo que testemunhei em 2008, quando comecei a trabalhar no poder judiciário. Em uma das primeiras audiências em que trabalhei, ao final dos depoimentos, um dos três réus confessos de um furto (lembro-me até do que foi furtado: guitarra e amplificadores), já solto, questiona o juiz: "Os policiais entraram na minha casa apontando as armas para o meu filho, o senhor acha que é justo que uma arma seja apontada para uma criança?". Resposta, ríspida: "Você não fez? Fez, não fez? A culpa é sua". Nos dois anos seguintes, ouvi o mesmo magistrado elogiar diuturna e efusivamente a ditadura militar no Brasil. Não vi ninguém, a não ser eu, quando esse papo furado foi dirigido a mim, o confrontar sobre esta posição antidemocrácita no período em quem trabalhei lá. Todos ouviam quietos, ou concordavam. Em outra ocasião, o mesmíssimo magistrado perguntou-me se eu era judeu. Respondi que não, mas que se fosse descendente de judeus isso me era indiferente. No dia seguinte me pediu desculpas pela pergunta, que achei esquisita, mas que não me ofendeu, claro. Disse-me que isso lhe havia tirado o sono. Duvido.
Klaus Barbie e inúmeros outros criminosos de guerra nazistas refugiaram-se na América Latina após o término da Segunda Guerra Mundial, inclusive no Brasil - caso de Joseph Mengele, o Anjo da Morte. Foram bem acolhidos pelas ditaduras militares que assassinaram e torturaram impunemente.

Thursday, March 18, 2010

É de dar medo

Volta e meia lemos a respeito de absurdos sobre os quais não nos manifestamos, seja por falta de tempo, seja por desânimo. No entanto, quando li que um juiz condenou um casal por educar os filhos em casa, isso calou fundo, pois atualmente trabalho no poder judiciário. Deve ser um pesadelo kafkaniano ser condenado criminalmente por apenas pensar e agir fora dos padrões, como se ainda estivéssemos na ditadura. Escrevi um e-mail para a Folha de São Paulo, jornal no qual li sobre o caso, e o texto foi publicado na íntegra no Painel do Leitor, dois dias depois (em 8/3/2010). Creio que resumi bem o que penso a respeito.

""Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques à sua honra e reputação. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques". Este é o texto do artigo 12 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Que também diz que "os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos" (artigo 26). Ao criminalizar, ainda que de forma simbólica, pais que deram instrução adequada a seus filhos - como comprovam as notas obtidas em prova elaborada por instituição estatal competente - , o Judiciário desrespeita os direitos humanos ("Juiz condena pais por educar filhos em casa", Cotidiano, 6/3). Entendo a posição da educadora Neide Noffs de que o ensino domiciliar pode e deve ser desencorajado, mas criminalizá-lo é um absurdo evidente." DANIEL SOUZA LUZ (Poços de Caldas, MG)






Sunday, January 10, 2010

Meu primeiro set como DJ


Abaixo está o setlist do que discotequei no Zica Braba Sound System, que rolou na casa do Rafa no dia 09/01/2010. A idéia era mandar roots reggae, dub, rocksteady, skinhead reggae e ska, como dizia o flyer, mas como não tenho muita intimidade com esses gêneros (em especial com skinhead reggae), toquei o que curto. Ia tocar uma música do Karnak, O Mundo, mas o CD deu pau, e tive que abreviar meu set e cortar uma música do Joey Strummer porque o DJ Quintino, que é profissional de verdade, apareceu e estava pilhado para tocar psy/trance. Como teve essa mudança de gênero, aproveitei para tocar duas músicas do Bad Brains que são punk/hardcore, porque é mais a minha cara:

Long Long Winter - Bob Marley

Sun is Shining - Bob Marley

Redemption Song - Joey Strummer and the Mescaleros (original do Bob Marley)

Train to Skaville - Ethiopians

Engine 54 - Ethiopians

Coma Girl - Joey Strummer and the Mescaleros

Stir it Up - Bob Marley

Get Down Moses - Joey Strummer and the Mescaleros

Is This Love? - Bob Marley

Silver and Gold - Joey Strummer and the Mescaleros

I Luv I Jah - Bad Brains

Long Shadow - Joey Strummer and the Mescaleros

Overs the Water - Bad Brains

Arma Aloft - Joey Strummer and the Mescaleros

King Bunny - Dub Narcotic Sound System

Ramshackle Day Parade - Joey Strummer and the Mescaleros

Why Don't You Just Be Happy? - White Frogs

All in a Day - Joey Strummer and the Mescaleros

I Luv I Jah - Cave In (original do Bad Brains, eu editei e pus efeitos na música, devia ter gravado)

Burnin' Streets - Joey Strummer and the Mescaleros (dá para ver que fez sucesso, as pessoas vinham me perguntar o que era, toquei o disco Streetcore quase inteiro)

Sailin' On - Bad Brains

Pay to Cum - Bad Brains

Sunday, September 13, 2009

É rápido, viu?

Após meses de abandono desse blog, retomo-o. Fiz um micrometragem experimental para o festival Celucine, mas não sei se concorri. Mais explicações no texto do Youtube ao lado do vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=-i6nVFVBshE

Wednesday, December 31, 2008

Manual do Minotauro



Laerte, o melhor quadrinista que há, mais genial ainda:

http://manualdominotauro.blogspot.com/

Monday, November 03, 2008

André Forastieri

Gênio. O melhor texto do jornalismo brasileiro. Quando era adolescente adorava as barbaridades que o cara escrevia, apesar de nem sempre concordar com as opiniões. Às vezes até discordava muito, mas a inteligência do sujeito sempre me deixou de queixo caído. Relendo algumas críticas e colunas dele há alguns anos, fico impressionado comigo mesmo: na época não ficava chocado, porém hoje me parece que alguns textos são realmente muito cruéis. Mas que se foda. Gênio, agora com um blog:

http://andreforastieri.com.br/